Operação Carrasco: ex-secretária de Bem-Estar Animal de Canoas e dois veterinários são presos por suposto esquema de eutanásias e fraude em doações
Repraas de Teutônia foi peça fundamental na apuração dos crimes
A Polícia Civil de Canoas, com apoio da Rede de Proteção Ambiental e Animal (Repraas) de Teutônia, deflagraram na madrugada desta segunda-feira (15) a segunda fase da Operação Carrasco, que teve como principal alvo a ex-secretária de Bem-Estar Animal de Canoas, Paula Lopes, além de dois médicos veterinários investigados por participação em um suposto esquema de eutanásias irregulares de cães e gatos e fraude na arrecadação de recursos para tratamento dos animais.
A ação foi coordenada pela 3ª Delegacia de Polícia de Canoas, com apoio da 2ª Delegacia Regional Metropolitana. Foram cumpridos três mandados de prisão preventiva e 12 mandados de busca e apreensão em Porto Alegre, incluindo clínicas veterinárias e um memorial pet.
Segundo o diretor da 2ª Delegacia Regional Metropolitana, delegado Cristiano Reschke, a investigação apontou que animais que possuíam possibilidade de tratamento eram submetidos à eutanásia por determinação da investigada, enquanto campanhas de arrecadação continuavam sendo realizadas nas redes sociais para custear supostos tratamentos.
“A prática era utilizada para arrecadar valores por meio de PIX, levando pessoas de boa-fé a acreditar que os recursos seriam empregados no tratamento dos animais, quando na verdade muitos deles acabavam sendo sacrificados”, afirmou o delegado.
A delegada Luciane Bortoletti, responsável pela investigação, explicou que a operação é um desdobramento da primeira fase da Operação Carrasco, realizada em 2025, que investigou mortes de animais durante a gestão de Paula Lopes na Secretaria Municipal de Bem-Estar Animal de Canoas.
Nesta nova etapa, o foco foi a atuação da investigada como protetora animal e responsável por um instituto que levava seu nome. Conforme a polícia, desde 2020 foram realizadas quase 600 campanhas de arrecadação online.
Em apenas um período de pouco mais de um ano analisado pelos investigadores, cerca de 15 mil pessoas realizaram doações. Somente nesse intervalo, aproximadamente R$ 700 mil passaram pelas contas ligadas ao instituto e, posteriormente, teriam sido transferidos para contas pessoais da investigada.
A polícia investiga os crimes de maus-tratos a animais, estelionato e associação criminosa.
Veterinários recebiam ordens para realizar eutanásias
De acordo com a delegada, os dois veterinários presos recebiam ordens diretas para realizar os procedimentos. Conversas obtidas durante a investigação mostram que, em alguns casos, os profissionais chegaram a questionar a necessidade das eutanásias e sugerir exames complementares, mas recebiam determinação para seguir com os procedimentos.
A polícia também apura a participação de outros profissionais e analisa documentos, laudos e materiais apreendidos nas clínicas para identificar quantos animais podem ter sido submetidos a eutanásias sem justificativa médica.
Embora o número total ainda não tenha sido definido, os investigadores afirmam que a prática era recorrente.
Celulares foram encontrados escondidos
Durante o cumprimento do mandado de prisão na residência de Paula Lopes, policiais encontraram celulares escondidos em uma lixeira do banheiro. Conforme relato dos agentes, a investigada demonstrou nervosismo e teria tentado desviar a atenção da equipe antes da localização dos aparelhos.
Os equipamentos foram apreendidos e serão periciados.
Cachorro utilizado em campanhas foi resgatado
Entre os animais encontrados durante a operação está um cão conhecido como “Dudu”, frequentemente utilizado em campanhas de arrecadação nas redes sociais.
Segundo a polícia, o animal apresenta amputação das patas dianteiras e sinais de sofrimento devido à falta de adaptações adequadas para sua locomoção. O caso também será investigado como possível exemplo da utilização de animais para sensibilizar doadores.
Investigação pode ter novos desdobramentos
Além das prisões e buscas, a Justiça determinou a apreensão dos passaportes dos investigados e deverá nomear um interventor para administrar o instituto ligado à ex-secretária.
Os investigadores também apuram a possível participação de uma policial civil que teria repassado informações privilegiadas à investigada. O material recolhido nesta segunda-feira será analisado para verificar se haverá novos indiciamentos e outras fases da operação.
Durante a coletiva, a delegada Luciane Bortoletti classificou o caso como um dos mais impactantes de sua carreira e afirmou que a investigada agia de forma sistemática na eliminação de animais.
“Era uma prática reiterada. Eu diria, sim, que se trata de uma assassina em série de cães e gatos”, declarou.
Fonte: Grupo Independente