Violência contra a mulher aumenta 28,8% em dias de jogo de futebol, diz pesquisa
Embora não seja causador da violência, o futebol é apontado como catalisador
Um estudo do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) divulgado nesta terça-feira apontou que as notificações de violência contra a mulher aumentam em dias de jogo de futebol. A pesquisa, patrocinada pelo Magazine Luiza, analisou registros de violência em cinco capitais brasileiras, incluindo Porto Alegre, e sua relação com o calendário das principais competições de futebol entre 2023 e 2025.
O estudo destaca duas formas de violência: ameaça e lesão corporal dolosa decorrente de violência doméstica. Em dias de jogo de um time da cidade, seja dentro ou fora de casa, a pesquisa aponta um crescimento de 27,4% nos registros de ameaça e 28,8% nos registros de lesão corporal. Foram avaliados dias de jogo do Brasileirão, da Sul-Americana e da Libertadores com presença de times nacionais em Porto Alegre, São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador e Belo Horizonte.
O estudo entende que, embora o jogo de futebol não possa ser considerado o causador da violência, ele pode ser um catalisador de dinâmicas patriarcais já existentes. A pesquisa também destaca que o aumento do consumo de bebida alcoólica e apostas esportivas durante partidas de futebol contribui para o aumento da violência.
Violência contra a mulher em ascensão
Esta é a segunda edição do estudo "Futebol e Violência contra a Mulher" e, em comparação com a pesquisa anterior, mostra um cenário de crescimento na violência contra a mulher, algo que também vem sendo registrado em índices mais amplos de violência.
O estudo “Visível e Invisível: a Vitimização de Mulheres no Brasil”, publicado em 2025, revelou que 37,5% das mulheres vivenciaram alguma situação de violência no ano anterior, o maior índice registrado desde 2017. Em 2025, o Brasil registrou 1.571 vítimas de feminicídio, o maior número da série histórica, além de registrar 280 mil boletins de ocorrência de lesão corporal dolosa vinculada à violência doméstica e 790 mil casos de ameaça.
A violência em dias de jogo segue essa tendência e também se tornou mais evidente. A primeira edição, que analisou dados de 2015 a 2018, apontou um aumento de 23,7% em ameaças e de 20,8% em lesões corporais contra mulheres em dias de jogo, valores inferiores aos registrados entre 2023 e 2025.
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Recorte racial
A pesquisa também revelou que, embora as mulheres negras sejam a maior parte das vítimas, as mulheres brancas são as que registram maior discrepância no número de casos de violência entre dias normais e dias de jogo. Contra mulheres negras, o aumento de casos de lesão corporal é de 23,2% e de ameaça é de 14,6% em dias de jogo. Já as mulheres brancas registram um aumento de 36,2% nos casos de lesão corporal e 30,9% nos casos de ameaça nas mesmas circunstâncias.
Juliana Brandão, coordenadora de Gênero e Raça do FBSP, aponta algumas hipóteses para explicar o fenômeno, considerando as vulnerabilidades socioeconômicas enfrentadas por muitas mulheres: um percentual maior de mulheres negras pode estar trabalhando nos horários dos jogos; como mulheres negras tendem a ser socializadas em ambientes com maior exposição à violência, esses episódios podem ser normalizados e menos notificados; os jogos de futebol podem representar uma alteração mais marcada na rotina em lares de mulheres brancas.
Sinal de alerta
Além de mapear o aumento dos registros de violência, o estudo apresenta recomendações para o enfrentamento da violência contra mulheres no contexto do futebol, incluindo a criação de postos de acolhimento e registro de violência dentro dos estádios, ações de prevenção relacionadas ao álcool e apostas esportivas, iniciativas de educação de masculinidade, protocolos internos nos clubes e o desenvolvimento de uma cultura torcedora mais inclusiva.
No entanto, a maior parte dessas violências acontece dentro das residências: 47,3% das ameaças e 62,8% das lesões corporais ocorrem em casa. Os dados chamam a atenção do poder público para intensificar suas ações de combate à violência doméstica levando em consideração os calendários esportivos.
Fonte: Correio do Povo